Adolescente disse a amigo que queria matar os pais
Segundo delegado, melhor amigo de M., de 13 anos, contou que garoto tinha fantasias constantes com matar os pais, pegar o carro e fugir
Jean-Philip Struck

Família de policiais militares é encontrada morta dentro de casa, no bairro da Brasilândia, Zona norte de São Paulo - Reprodução/Facebook
O único amigo do adolescente M.E.B.P., também de 13 anos, afirmou em depoimento à polícia que o garoto tinha fantasias constantes de matar os pais, pegar o carro da família e fugir para um lugar desconhecido. As informações foram dadas pelo delegado responsável pelas investigações, Itagiba Moreira Franco, do Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP).
“Sempre me chamou para fugir de casa alegando que tinha o sonho de ser um matador de aluguel. Tinha um plano: matar os pais durante a noite, quando ninguém soubesse, e fugir com o carro dos pais para morar em um local abandonado”, diz um trecho do depoimento, lido pelo delegado na tarde desta terça-feira.
O adolescente M. é suspeito de matar a tiros os pais – o sargento da Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar (Rota) Luis Marcelo Pesseghini, de 40 anos, e a cabo do 18º Batalhão Andreia Regina Bovo Pesseghini, de 36 – a avó, Benedita Oliveira Bovo, 65, e a tia-avó, Bernardete Oliveira da Silva, 55. Em seguida, M. teria se suicidado. O crime aconteceu entre a noite de domingo e a madrugada de segunda-feira, na Vila Brasilândia, Zona Norte de São Paulo.
Segundo apurou a polícia, M. era um garoto isolado, com poucos amigos e tinha muitas armas de brinquedo no seu quarto. Com papelão, ele chegou a improvisar um colete igual ao da tropa de choque da PM. Usando fita adesiva, confeccionou um coldre. O garoto também sofria de diabetes e fibrose cística, uma doença genética incurável que costuma levar à morte prematura se não tratada.
Segundo a polícia, o adolescente que prestou depoimento à polícia era praticamente o único amigo de M. Também de 13 anos, ele estudava na mesma escola do suspeito.
Imagens – O mesmo garoto reconheceu M. nas imagens obtidas pela polícia que mostram uma pessoa estacionando o carro de Andreia próximo à escola do filho, a cinco quilômetros do local do crime, por volta da 1h de segunda. De acordo com as imagens, às 6h15, essa pessoa saiu do carro, colocou uma mochila nas costas e seguiu em direção ao colégio. O delegado afirmou que as chaves do carro de Andreia estavam no bolso de uma jaqueta do filho, encontrada na casa onde ocorreram as mortes.
"Tudo vai se encaixando, se fechando", disse o delegado Franco, que afirmou ainda que o inquérito ainda não foi concluído, mas que tudo “leva a crer” que as mortes foram uma “tragédia familiar”. "Nossa presunção inicial parece que está se confirmado, e tudo leva a crer que o garoto matou os pais e se suicidou", disse.
Carona - Ainda segundo o delegado, o pai do amigo de M. afirmou em depoimento que deu carona para o adolescente quando ele deixou a escola, no fim da manhã de segunda-feira. Ele contou que M. chegou a apontar para o carro de Andreia, que estava estacionado próximo, e pediu para que ele parasse. Ainda segundo o depoimento, M. foi até o carro e apanhou um objeto, retornando em seguida para o carro do pai do colega, que a princípio não estranhou. Ele contou ainda que ao deixar M. em sua casa, perguntou se deveria buzinar para avisar a chegada dele. O adolescente disse que não era preciso porque os “pais estavam dormindo”. “Ele [M.] tentou evitar a aproximação de pessoas da casa”, disse o delegado.
Franco também afirmou que uma das professoras de M. declarou que não notou nada errado em seu comportamento recentemente. Segundo o depoimento, ela teria apenas estranhado uma pergunta enigmática feita por M. na segunda-feira de manhã. De acordo com ela, M. perguntou se quando tinha a sua idade (13 anos), ela teria alguma vez “dirigido um carro e atingido os pais”.
Perguntas - Vários detalhes do crime permanecem em aberto. Os corpos do pai, da avó e da irmã dela foram encontrados, nas palavras do delegado, “como se estivessem dormindo”. Não foi determinado se eles foram dopados - o laudo toxicológico só será concluído em 20 ou 30 dias. Vizinhos disseram à polícia não ter ouvido os disparos. As investigações também não apontaram ainda como o crime se desenrolou e quem morreu primeiro.
Segundo a polícia, apenas Andreia estava em posição de “submissão”, o que dá a entender que ela estava acordada quando foi morta. Seu corpo foi encontrado caído de joelhos, com os braços em frente ao rosto. Um total de cinco cartuchos foi encontrado na casa.
As balas eram de uma pistola .40, que pertencia a Andreia. De acordo com a polícia, a mãe não tinha mais permissão para portar a arma, já que estava lotada em serviços administrativos – ela tinha problemas na coluna e havia passado por uma cirurgia recentemente. Já a outra arma, encontrada na mochila do adolescente, um revolver calibre 32 pertencia ao avô de M. Não se sabe se ele chegou a levar essa arma para a escola.
A polícia também ainda não tem detalhes sobre como M. teria aprendido a dirigir. “Ninguém sabia que ele dirigia. Parece que ele contou para uma professora que já tinha dirigido um bugue”, disse Franco.
Exame - A pistola usada para matar a família foi encontrada na mão esquerda de M. Segundo a polícia, apesar das afirmações de alguns parentes de que o adolescente era destro, “não há dúvida de que ele era canhoto”, de acordo com os depoimentos de pessoas próximas. Foi feito um exame residuográfico para colher possíveis traços de pólvora na mão do adolescente, mas o resultado foi negativo. Ainda assim, a polícia diz que isso não descarta a autoria do adolescente.
“Isso [o exame] não é importante. Uma grande porcentagem de exames não dá positivo”, diz o delegado. Segundo ele, isso pode acontecer por causa de características da arma, da munição e da posição do atirador.
O delegado também afirmou que fios de cabelo foram encontrados na mão de M. O material, assim como o computador dele e o carro da mãe, devem passar por uma perícia.
Ao final da entrevista, Franco resumiu o caso como "uma tragédia familiar". "Nós que somos policiais sofremos bastante para manter uma arma distante dos filhos e da esposa. A principal orinetação para esses casos é conversar e orientar os filhos”, finalizou o delegado.







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