quinta-feira, 8 de agosto de 2013

PMs mortos ensinaram filho a dirigir e a atirar, diz testemunha

PMs mortos ensinaram filho a dirigir e a atirar, diz testemunha





SÃO PAULO — Os pais de Marcelo Pesseghini, o menino de 13 anos acusado de matar a família em São Paulo, teriam ensinado o adolescente a atirar e a dirigir, segundo o depoimento de um policial militar à Polícia Civil. De acordo com o delegado Itagiba Franco, que investiga o caso, um PM que trabalha no mesmo batalhão em que a cabo Andréia Pesseghini trabalhava contou que ela ensinou o menino a dirigir e que o marido dela, o sargento da Rota Luís Marcelo Pesseghini, ensinou o filho a usar armas.

Esse PM, identificado apenas como soldado Neto, foi a primeira pessoa a chegar à casa onde as vítimas foram encontradas. Ele achou estranho o fato de Andréia não ter comparecido ao 18º Batalhão para trabalhar e foi à casa dela por volta das 12h de segunda-feira. Como não encontrou ninguém, voltou à tarde com outro soldado. Os dois teriam pulado o muro e encontrado os corpos.

O delegado convocou vizinhos da família para prestar depoimento. Franco quer saber de declarações que os vizinhos deram à imprensa de que que teriam ouvido barulhos de tiros. Um vizinho também teria dito a jornalistas que a mãe de Marcelo costumava pedir ao filho para tirar o carro da garagem e guardá-lo.

Em declaração à imprensa nesta tarde, o delegado Itagiba contou que um amigo de Marcelo Pesseghini relatou que o garoto costumava dizer aos colegas que aquele seria o seu último dia na escola. Como Marcelo disse isso em vários dias e continuava frequentando as aulas, isso causava estranhamento aos amigos.

Segundo o delegado, com 1,60m de altura, Marcelo tinha estatura e condições físicas de dirigir e segurar numa arma.

Itagiba Franco classificou de suposições informações divulgadas pela imprensa sobre a presença de sangue no corpo de Marcelo e hematomas no corpo dele.

— Não chegou nada oficialmente para nós ainda. Pedi que uma equipe fosse até o Instituto de Criminalística para colher possíveis informações preliminares, mas nada chegou até nós até esse momento — disse Franco.

Delegado fica irritado com críticas à condução do caso

O delegado também disse estar convicto em relação aos rumos da investigação que apontam o adolescente como autor dos tiros e acrescentou que os questionamentos sobre o trabalho da polícia são comuns porque "nossa cultura não está acostumada a esse tipo de investigação de crime".
— Se for realmente atribuído (o crime) ao Marcelo, a nossa cultura não está acostumada com isso. Os Estados Unidos, sim. Lá, garotos que têm um comportamento aparentemente normal, de repente têm um treco na cabeça e saem atirando em todo mundo — disse.

O delegado criticou o fato de adolescentes como Marcelo terem acesso fácil a jogos violentos de videogame — o adolescente foi descrito como um menino caseiro, que gostava de jogar videogame — e salientou que a intenção da polícia não é denegrir a família do jovem.

— Não quero denegrir (a família). Quero estabelecer a verdade — disse Franco, acrescentando:
— Estou conduzindo essa investigação serenamente, convicto de que estou trabalhando certo. Se amanhã alguém aparecer com uma pista de que não é o garoto, que venha até nós.
O delegado criticou suposições em relação ao caso por parte de especialistas ouvidos pela imprensa.
— Estou me lixando para o que (os especialistas) estão pensando. Tenho a consciência tranquila de policial experiente — cutucou.

O delegado espera laudos do Instituto Médico Legal e do Instituto de Criminalística nos corpos e em objetos encontrados na casa e no carro para concluir o inquérito.
Ele comentou as declarações da família de Marcelo, que não acredita que o menino seja o autor dos crimes. Itagiba disse que a investigação é séria e serena, e alertou para o fato de que ele próprio é um delegado experiente casos de homicídios. Para ele, tudo leva a crer que o menino matou a própria família.

Surpresa com a fala de coronel

O delegado-geral de Polícia Civil de São Paulo, Maurício Blazeck, disse nesta quinta-feira não acreditar nas primeiras declarações dadas pelo coronel Wagner Dimas, comandante do 18º Batalhão de Polícia Militar, onde trabalhava a cabo Andréia Pesseghini, morta em chacina na madrugada da segunda-feira na capital paulista.

Para a Rádio Bandeirantes, na quarta-feira, o coronel disse que a cabo havia colaborado com informações para uma suposta investigação contra colegas policiais envolvidos em roubos de caixas eletrônicos. Nesta quinta-feira, o oficial voltou atrás e disse que as denúncias da cabo não foram feitas.

— Da mesma forma que a imprensa, a gente também se surpreendeu (com as primeiras declarações do coronel), porque isso não se encontrava na dinâmica do crime – ressaltou Maurício Blazeck.
O delegado-geral acrescentou:

— Não parece, até o momento, que isso tenha ocorrido (ligação entre a declaração do coronel e a morte da família) — afirmou.

Na segunda-feira, foram encontrados mortos um casal de PMs, o filho de 13 anos, a avó e uma tia-avó. Segundo a polícia, o garoto de 13 anos, matou a família e depois se suicidou. Dimas é responsável pelo batalhão onde trabalhava a mãe do menino.

O coronel assinou um Termo de Declarações junto à Corregedoria da PM, onde afirmou não existir qualquer denúncia formalizada sobre policiais militares envolvidos com crimes de roubos a caixas eletrônicos em seu batalhão, segundo o SPTV, da Rede Globo, desta quinta-feira. O comandante destacou também que a policial não fez qualquer denúncia a respeito e que se perdeu em suas argumentações para o repórter.

Ainda segundo o SPTV, o coronel Dimas prestou depoimento nesta manhã, no Departamento de Homicídios de Proteção à Pessoa (DHPP). Dimas iria conceder uma entrevista ao telejornal nesta quinta-feira, mas, muito nervoso, cancelou sua participação para explicar o episódio. Ele precisou tomar calmante.

Ontem, o Comando da Polícia Militar, em nota divulgada à noite pela sala de imprensa da corporação, “reafirma que não houve qualquer denúncia registrada na Corregedoria da PM, ou no Batalhão, por meio da Cabo Andréia Pesseghini contra policiais militares”.
Disse também que “foram consultados arquivos da Corregedoria, do Centro de Inteligência e do próprio Batalhão, e nada foi identificado” e que “será instaurado um procedimento para apurar as declarações do Coronel Wagner Dimas Alves Pereira, Comandante do 18º Batalhão, não alterando em nada o rumo das investigações”.

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