quinta-feira, 25 de julho de 2013

Depoimentos de PMs contrariam informações da polícia sobre prisão de estudante em protesto


Depoimentos de PMs contrariam informações da polícia sobre prisão de estudante em protestoFavoritar

Reportagem do Jornal Nacional, da TV Globo, mostra que policial afirmou que Bruno Teles não tinha explosivos ao ser preso Polícias também divergiram sobre quantidade de explosivos apreendidos durante a manifestação de terça-feira

O GLOBO

Policial aborda manifestante no protesto de segunda-feira -
Foto: Hudson PontesPolicial aborda manifestante no protesto de segunda-feira - Hudson Pontes
RIO - O depoimento de um dos policiais que prendeu Bruno Ferreira Teles, de 25 anos, na noite de segunda-feira durante protestos na Rua Pinheiro Machado, em Laranjeiras, contradiz o que vinha dizendo a Polícia Militar sobre o manifestante. Acusado de atirar um coquetel molotov contra policiais, Bruno foi autuado por porte de artefato explosivo e desacato. O depoimento, exibido no Jornal Nacional, da TV Globo, nesta quarta-feira, contraria as declarações oficiais das polícias Civil e Militar sobre a prisão.
De acordo com a reportagem, as polícias divulgaram que coquetéis molotov haviam sido apreendidos com o estudante, embora as duas instituições tenham divergido sobre o número de explosivos encontrados com o rapaz. Já o policial que efetuou a prisão afirmou na delegacia que Bruno não tinha nenhum coquetel molotov quando foi detido. Ele afirmou que um manifestante não identificado lançou o primeiro coquetel molotov e que, logo depois, outra bomba foi acesa e entregue a Bruno, que a lançou. Segundo o JN, o Ministério Público disse que está analisando o processo sobre a prisão do manifestante e que deve anunciar uma decisão na próxima segunda-feira.
Na noite de segunda, horas depois do início do tumulto na manifestação, a PM divulgou em seu twitter oficial a informação de que vinte coquetéis molotov tinham sido apreendidos com um manifestante. Minutos depois, uma nova mensagem: duas pessoas tinham sido presas. Uma portando material explosivo e outra por desacato. Por volta de meia noite, a Polícia Civil divulgou uma nota informando que 11 coquetéis molotov haviam sido apreendidos. Ainda segundo a Polícia Civil, havia duas pessoas presas, um menor apreendido e cinco pessoas autuadas. A mesma nota afirmava que Bruno Ferreira Teles era o único preso por portar artefato explosivo e que ele também estava sendo acusado de desacato. Na terça-feira pela manhã, a PM reafirmou, em nota, que eram 20 os coquetéis molotov apreendidos com um dos presos.
Bruno passou a madrugada na cadeia. O juiz que estava de plantão na noite da manifestação negou o pedido para libertá-lo. O juiz argumentou que, pelo relato dos policiais que o prenderam, o estudante teria cometido crime de resistência e de lesão corporal. O magistrado citou ainda que Bruno teria dado um soco no pescoço e uma unhada em um dos policiais, havendo, assim, prova da existência dos crimes.
No mesmo dia, o presidente da Comissão Criada pelo governo do Rio para investigar o vandalismo em manifestações, o procurador Eduardo Lima Neto, disse que o MP ia denunciar o manifestante por tentativa de homicídio.
Quem atira um coquetel, um explosivo contra uma multidão, contra a PM, contra seja quem for, está assumindo o risco de matar alguém disse Lima Neto ao JN .
Na manhã de terça, os advogados do manifestante conseguiram um habeas corpus. Na decisão, o desembargador Paulo de Oliveira Lanzelloti Baldez disse que nenhum artefato explosivo havia sido apreendido com Bruno e que a prisão em flagrante não tinha fundamento idôneo e concreto.
Bruno deu uma entrevista ao grupo Mídia Ninja fazendo um apelo para que alguém que tivesse filmado o momento do tumulto e de sua prisão postasse o vídeo.
Foi na primeira hora que eles fizeram o pessoal correr. Foi na hora que o pessoal estava tenso e fizeram todo mundo correr. Eu queria pedir pra vocês ajudarem, é pra encontrar o vídeo onde eu corri da polícia, e me prenderam e disseram que eu estava com uma garrafa de molotov. Eu não estava relatou ao repórter do Mídia Ninja.
Após o pedido, um vídeo acabou postado nas redes sociais. Nele, Bruno passa no canto direito do vídeo. Neste momento, não aparenta ter nada nas mãos, nem usa mochila. Um policial e um homem de camisa preta o perseguem. O cinegrafista amador corre para acompanhar a cena: mais à frente, o estudante cai no chão. Quase ao mesmo tempo, explode uma bomba ao lado dele. Um policial chega e usa uma arma não letal contra o peito de Bruno, que parece desmaiar. O vídeo termina com o estudante sendo carregado pelos policiais.
Em outras imagens, Bruno aparece em pé, sem camisa, cercado por policiais, e com um colete de metal no peito. Um dos policiais militares acusa o rapaz:
Foi ele que tacou o primeiro coquetel molotov.
Um policial pergunta para outro PM:
Ele é preso de quem?
O outro responde que um P2 havia detido o rapaz. O termo P2 é usado para chamar policiais que trabalham, sem farda, infiltrados.
Outra dúvida levantada sobre a prisão de Bruno diz respeito a um mochila que teria sido usada para carregar explosivos.
A imagem de um dos vídeos mostra o momento em que a polícia encontra uma bolsa cheia de coquetéis molotov. O local fica a cerca de setecentos metros de onde Bruno foi preso. Imagens feitas por um cinegrafista da TV Globo mostram que, antes do início dos confrontos, o rapaz não estava com mochila.
Eu não tenho mochila nenhuma. Eu acredito, como eu fiquei na frente lá, falei muito com testemunho, fiquei meio com o rosto marcado, entendeu? E eu não usei máscara, acho que não tenho motivo pra usar máscara, no momento em que não tá errado disse Bruno, na entrevista ao grupo Mídia Ninja.

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